quinta-feira, dezembro 14, 2006

EXORCIZANDO OS MEDOS...

Não se falava em outra coisa na época, era reportagem na TV, jornais e revistas… um verdadeiro sucesso no mundo inteiro, mas eu que nunca fui muito chegado a esse tipo de estilo de filme… eu não achava… não gostava do… NÃO na verdade o que eu tinha mesmo era MEDO!!! Acho que tinha 10 anos e ficava apavorado só e imaginar aquela menina que era possuída pelo capeta, “a cabeça dela vira ao contrario!” dizia um amigo meu, me amedrontando ainda mais. E eu nem queria saber de ver “aquilo” e mesmo que quisesse não teria mesmo como ir, pois o filme era para adultos e eu um moleque apenas, não tinha como entrar no filme, mas por tentação do próprio “coisa ruim” o filme começou a passar no poeirinha que tinha perto da minha casa O Cine Cachambi, (eu morava no Méier), me deixem explicar melhor para os que não são cariocas e/ou da minha época “poeirinha” era como chamavam os cinemas, geralmente no subúrbio, que permitiam menores de idade freqüentassem as sessões. Esses cinemas geralmente passavam filmes pornôs, mas as vezes passavam filmes do grande circuito também, e com a facilidade que se tem hoje em dia ao acesso à pornografia, na internet, bancas de jornais que vendem DVDs eróticos a qualquer um, esses tipos de cinemas faliram, extinguiram-se e acabou o glamour daquele tempo onde os pré adolescentes eram iniciados no mundo dos filmes eróticos, nas telonas endiabrando nossas almas. Bom mas o assunto agora é sobre outro diabo. E lá fui eu ao poeirinha com mais alguns amigos (como uma criança de apenas 10 anos ia ao cinema sozinho?! Sozinho pelas ruas?! Ai que saudades do Rio de Janeiro daquela época!) ver O Exorcista e tudo era uma festa! Uma incrível sensação de estar sendo aceito pelo mundo dos adultos! E de carteirinha em punho – sim de carteirinha! Falsificada, mas tinha que estar escrita lá a data de nascimento, suficiente para você ter 18 anos, ainda que a carteirinha fosse comprada na papelaria do bairro e a sua cara parecesse de um moleque de 10 anos. Até que toda a alegria começou a se esvair ao apagar das luzes, justamente no momento mais esperado por mim em todos os filmes, quase pedi clemência... o inicio do filme é tranqüilo, luz do sol – que ótimo, nada de mal acontece em plena luz do dia! - Mas logo em seguida aquele turbilhão violento de incorporação do tinhoso na bela e frágil personagem de Linda Blair fez agarrar-me na cadeira, e nem adiantou aquelas intermináveis sessões de descarrego de deixar o Bispo Macedo morto de inveja, mas nada comparado ao susto ao ver a cabeça da coitada girando sobre o pescoço, e aquela voz – porque o capeta tem que ter aquela voz feia e grossa? – outra cena que me marcou foi quando a água benta jogada na menina Regan MacNeil (Linda Blair) cortando e soltando fumaça da carne dela. E por final aquela dúvida cruel se o mau ou bem venceu, quando o padre em total desespero se joga pela janela se matando e leveando com ele o capeta junto – mas peraí levando o capeta pra onde? O capeta morre? Pronto lá iam-se minhas próximas noites de sonos, e logo eu que tinha tido pesadelos terríveis até com o filme O Planeta dos Macacos. E o pior estava por vir, simplesmente eu tinha ido a cinema escondido da minha mãe e não teria dessa vez o consolo dela, caso tivesse algum pesadelo pelos próximos dias. E o filme é fascinante e diferente de tudo que já havia sido feito em terror no cinema e depois também não fizeram nada igual e O Exorcista me deixou marcas tão profundas como as da água benta no corpo da pequena do filme, foram algumas noites mal dormidas e solitárias. Talvez eu tenha aprendido ali lidar melhor com os meus medos. Hoje vejo que o que ficou em minha memória mesmo foi a qualidade daquele filme, que sem o uso da computação gráfica, conseguindo aqueles efeitos se tornarem ainda mais reais, e me fizeram aprender mais uma lição a de que para amedrontar em um filme não precisa de sangue, lobisomem, vampiros e muito menos efeitos especiais (que nem eram tantos na época) era preciso mas realismo, texto forte e nada mais real e pavoroso do que o mal que existe dentro de nós mesmos. E por fim o bem venceu o mau… pelo menos eu venci os meus... eu acho…

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A VIDA É BELA X CENTRAL DO BRASIL

1999 - Fui ver com uma tremenda má vontade, já que ouvi dizer que A Vida é Bela era a mais forte concorrente a tirar o Oscar de melhor filme estrangeiro do brasileiro Central do Brasil. E lá fui eu com meu peito inflado de um ufanismo exagerado torcendo para que o filme fosse uma bomba, e o filme até que começa mais ou menos, apesar de um Roberto Benigni afetado que estava mais para Didi Mocó do que um ator com pretensões a ganhar algum tipo de prêmio com aquele filme, no entanto o roteiro tinha algumas sacadas muito boas, a maneira de como o personagem Guido (Benigni) armava as situações e manipulava as coisas e as pessoas inclusive conquistando a amada Dora (o mesmo no do personagem de Fernanda Montenegro, do concorrente direto Central do Brasil), foi aos poucos me cativando e me deixei seduzir por completo no momento da virada da história, já com o personagem de Giosué (Josué também como o do Central do Brasil) inserido na história. Nesse instante do filme a historia ganha uma força, primeiro por falar da 2ª guerra mundial e principalmente de como Guido encara a guerra, ou pelo menos tenta demonstrar como seria a guerra ao seu filho e transformando aquele campo de concentração em uma colônia de férias, nunca havia visto até então um filme que falasse de uma guerra de uma maneira tão lúdica, enquanto Guido afagava seu filho na tela disfarçando a dor da guerra para ele, me sentia afagado também. O ator mirim Giorgio Cantarini, que fazia o filho de Guido estava maravilhoso, com seu olhar preciso e focado em cena, pouco precisava falar para interpretar, um achado e com certeza um impulsionador para o Oscar, já que a Academia sempre viu com bons olhos filmes protagonizados por crianças, e, apesar de não ser ele o protagonista principal, passa a ser com a morte de Guido na história, bom... naquele dia sai do cinema com uma nítida certeza que ainda não seria daquela vez que ganharíamos o Oscar e não foi mesmo, e aquele ano foi muito curioso a noite do Oscar, primeiro aqui que os televisores ligados todos no mesmo canal dava ares de Copa do mundo aquele Oscar (principalmente a certeza de muitos de que já entraríamos em campo com o jogo ganho) e lá, quando sobe ao palco Sophia Loren, uma atriz Italiana apresentando uma homenagem ao ator/diretor Roberto Benigni e em seguida iria apresentar o prêmio de melhor filme estrangeiro (???) estranho e desnecessário, apenas abreviou a frustração ao percebermos que o prêmio seria de A Vida é Bela, frustração para muitos, principalmente para aqueles que como um amigo que assistia a premiação ao meu lado ficou muito P... da vida com a vitória do “A Vida é bela”, porém ao ser questionado por mim porque ele achava uma “marmelada” ele prontamente me respondeu que o Central do Brasil tinha que ganhar porque era brasileiro, e o mais incrível era que ele não havia visto nem “Central do Brasil” tampouco “A Vida é Bela” definitivamente para ele o filme brasileiro era “a pátria de chuteiras” naquele Oscar. Mas uma coisa eu sabia e tinha visto nos cinemas naquele ano... o Josué deles era melhor que o nosso, alias o nosso Josué era chato demais!!!

quarta-feira, novembro 29, 2006

CANAL 100... O FUTEBOL ARTE DE VERDADE

De 1959 a 1986
Sempre antes dos filmes havia os famosos cine jornais e o mais famoso ainda era o CANAL 100, ansiosamente aguardado pelos amantes do futebol, eu apesar de torcedor (sofredor) do America Football Club não me preocupava apenas com o futebol em si, mas principalmente com as imagens exclusivas de Francisco Torturra, o melhor cinegrafista de futebol da história dos cinejornais, sempre sob a supervisão de Carlos Niemeyer, sem contar a trilha sonora com a indefectível “Na cadencia do Samba" que virou hino e trilha sonora do futebol brasileiro. Como dizia Nelson Rodrigues “Foi a equipe do CANAL 100 que inventou uma nova distância entre o torcedor e o craque, entre o torcedor e o jogo, grandes mitos do nosso futebol, em dimensão miguelangesca, em plena cólera do gol. Suas coxas plásticas, elásticas enchendo a tela. Tudo o que o futebol brasileiro possa ter de lírico, dramático, patético, delirante...” eu nunca cheguei a tanto, de admirar as coxas dos jogadores... mas o enquadramento dos filmes do CANAL 100 era fantástico... as imagens realmente deixávamos próximos do jogo e a imagem a 24 quadros dava uma sensação ótima, com certeza era um espetáculo a parte nas sessões de cinema da minha infância, os dribles do Garrincha
(VER) que nunca cheguei a ver jogar, ao vivo, era ainda mais humilhantes naquele enquadramento em que mostrava suas pernas tortas, entortando por inteiro os zagueiros adversários. E era assim chegar mais cedo nas salas de cinemas sempre tinha esse bônus, a arte de Carlos Niemeyer como aperitivo, que marcou gerações de torcedores e craques... até a próxima e boas imagens!!!

domingo, novembro 26, 2006

LÁGRIMAS EM UMA COMÉDIA...

1992 - Na época eu era proprietário de uma academia de ginástica e musculação (é verdade, eu já tive isso um dia) e certa noite sai com minha namorada e fomos ver Chaplin com Robert Downey Jr., adorava a idéia de ver o filme que contasse a história de Chalie Chaplin, tinha lido um livro de sua biografia e fiquei impressionado com a história daquele cara que teve uma infância miserável e uma mãe louca (no filme interpretada por Geraldini Chaplin, filha de Chaplin na vida real), podia ter sido uma noite qualquer, mas não foi... após o filme entrei no carro e ainda no estacionamento fiquei parado por algum tempo, estático, chapado e ali ao lado da minha namorada que sem entender minha atitude, ficou em silêncio… apenas me observava, talvez esperando que dissesse algo, mas eu não disse… apenas umas lágrimas rolaram de meus olhos, nesse momento minha namorada se aproximou e tentando me confortar perguntou se ela havia feito ou dito algo que me magoasse... claro que não, eu disse, com um sorriso tentando confortá-la... e não havia feito nada mesmo, quem me fez foi o Chaplin não o filme em si, tampouco a excelente interpretação de Robert Downey Jr., ou talvez tudo isso também, mas principalmente o Chaplin... sim o verdadeiro Chaplin que já havia morrido naquela ocasião há 15 anos e deixado de filmar há 20... mas o que meus olhos captaram lá dentro da sala do cinema eu não podia esquecer, não podia deixar me emocionar com a história daquele cara que, como já há disse lá em cima, teve uma infância miserável mas que amava o ofício de ator e descobriu no cinema uma forma de ganhar dinheiro e ficou milionário (dono da United Artists, com alguns sócios entre eles David Griffith) e na ocasião do Oscar de 1972 quando ganhou o Oscar honorário (uma espécie de prêmio de consolação) declarou a um repórter nos bastidores: "Fiquei muito honrado, mas devo admitir que comecei a fazer cinema por dinheiro. A arte veio depois, naturalmente. Nada posso fazer se as pessoas se decepcionam com essa afirmação. É a pura verdade". Mas foi sim, um artista na melhor concepção da palavra, e mais do que isso, dominava a câmera, sabia interpretar pra ela, sem torná-la presente. No entanto o seu processo de criação artística foi o que mais me impressionou, como na cena em que em um jantar, entediado como assunto da mesa que era política, ele pega um par de garfos e enfia cada um em um pãozinho e começar a brincar com se fosse dois pés dançando, ou todo o processo de finalização do filme “Luzes da Cidade” que durou 2 anos e 8 meses, era um filme mudo, mesmo tendo sido feito em 1931, 4 anos portanto depois do surgimento do cinema falado, é considerado a maior obra de Chaplin. E foi isso que me deixou daquele jeito naquela noite, o homem... a arte... a sensibilidade... naquele momento parece que eu entendi que fazer um filme era muito mais do que ligar uma câmera e colocar atores na frente dela para interpretar, não, ter que haver um porque, um sentimento, uma verdade de quem faz... sem essa emoção o que se consegue é apenas mais um filme e a perseverança que vi em Chaplin ratificou minha certeza de que era aquilo que eu queria fazer na minha vida... CINEMA!!!

sexta-feira, novembro 24, 2006

AOS AMIGOS QUE POSTARAM ONTEM...

... gostaria de pedir desculpas pelo texto estar incompleto, na verdade, por total ignorância de recém usuário dessa ferramenta, o texto do blog abaixo vai apenas até antes da palavra "AQUI" que está em azul, indicando um link (no caso o link do filme a que me referia) após esse link o texto foi cortado por eu não saber usar direito esse treco... mas após algumas surras e teclado espancado o texto está aí na integra. Aproveito a oportunidade e coloco aqui a foto do saudoso e referido Cinema Metro Tijuca e que deixou saudades... abraços e boas imagens!!!

quinta-feira, novembro 23, 2006

A PRIMEIRA SESSÃO DE CINEMA...

…a gente não esquece jamais, pelo menos eu não esqueci de quando era apenas um guri de calça curta e fomos levados, eu e meu irmão, pelas mãos de minha mãe ao Cine Metro Tijuca que ficava na Praça Saens Peña (onde hoje funciona uma loja da C&A)… engraçado lembrar agora da praça que chegou a ser conhecida como a “Cinelândia da Tijuca” por causa da quantidade de cinemas que lá havia e hoje, por causa da violência urbana, há apenas três cinemas nesse bairro da Zona Norte carioca em que passei parte da minha infância. Hoje, as outrouras salas suntuosas nos velhos prédios em estilo Art-Deco, agora servem a cultos evangélicos e lojas comerciais, quando não estão fechados, entregues ao esquecimento. Bom mas o assunto aqui é cinema, pelo menos o que passa lá dentro, e, foi lá dentro da sala do Metro Tijuca que vi “ROBERTO CARLOS A 300 km POR HORA” a minha primeira incursão no escurinho do cinema, é claro que a escolha foi de minha mãe, apaixonada pelo Rei, como toda geração dela foi, nos levou naquela tarde para ver o filme que marcou de vez minha vida, do filme mesmo pouco me lembro, mas o “ir ao cinema” foi algo especial… a pipoca quentinha na entrada, a sala acarpetada até as paredes, a luz que se apagava e a cortina que se abria gradativamente (sim as cortinas se abriam diante da tela no inicio de cada sessão) só aumentava minha inquietação ao lado de meu irmão e minha mãe. De repente a escuridão total, o projetor joga com pujança, na tela, o Leão da Metro rugindo, me deixando estatelado, olhando para aquele mundo novo que se abria na minha frente tudo era maravilhoso! Cine Jornais, trailers e finalmente entre gritinhos animados da platéia lá estava ele o Rei Roberto Carlos a bordo de um Dodge Charger R/T, em meio a roncos de motor e muita fumaça saindo dos pneus, conta a história do mecânico Lalo (Roberto Carlos), que trabalha numa revendedora de automóveis e quer ser um piloto de corridas… como disse não lembrava tanto dos detalhes assim, mas tá tudo aqui. Porém o que me enfeitiçou naquela tarde foi o rosto das pessoas ligadas naquela história, no som que invadia a sala, naquela luz que vinha em direção dos nossos rostos... essa magia continua me encantando até hoje, por isso o cinema é uma arte infinita, imortal, pois a sedução dessa sala escura que resiste aos DVDs, home theaters e pipocas de micro-ondas, que tira as pessoas do conforto de suas casas e as empurram em direção a história, a realidade momentânea e talvez lá (nas salas dos cinemas) seja o único lugar que você consegue “entrar” na história, sofrer com a dor da mocinha, vibrar com o herói, assustar com um sangue de “mentirinha” e esquecer que é apenas uma história! Pelo menos para amantes do cinema como eu, é assim que acontece… obrigado dona Mira, por aquela tarde...